quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

ESCULTURAS NA UMBANDA



A intolerância religiosa de fanáticos vem há anos perseguindo a umbanda de muitas formas.
A Bíblia, tida como escrituras sagradas por algumas religiões, sempre foi e ainda é, usada como arma de ataque a toda e qualquer forma de crença e culto divergente à tal pregação.
Exemplo disto são os textos onde “Deus” proíbe aos homens fazerem esculturas para simbolizar a Divindade.
Seria isso uma forma de egoísmo, ciúmes ou autoritarismo de Deus sobre a humanidade?
De forma alguma venho julgar ao Criador, mas sim, tentar junto a você leitor, formular um pensamento lógico e fundamentado sobre Deus e os textos bíblicos que tanto servem para atacar nossa religião.
Alguns textos são apavorantes e proíbem que sejam feitas imagens de qualquer animal da terra, do ar e do mar.
Pergunto então, porque os mesmos fanáticos que perseguem a Umbanda com estes textos sobre esculturas, e afirmam não usar nenhum tipo de imagem que faça referência nem a Jesus, possuem por todos os cantos de sua rotina, imagens, adesivos, chaveiros, e uma infinidade de outros itens de uma formiga desmilinguida que segura plaquinhas dizendo “Jesus te ama” entre outras frases?
E a religião católica, que tem por princípio a Bíblia. Porque não respeita essas menções sagradas de Deus, e mantém em todos os cantos das Igrejas diversas formas de esculturas desenvolvidas nos mais diversos tipos de materiais? Imagens com referência a Jesus em todos seus passos, e imagens de todos santos e beatos.
A imposição católica na conversão religiosa dos escravos os fez aceitar as esculturas católicas e associar aos orixás de suas culturas, desta forma continuaram prestando o culto de uma maneira figurada.
Interessante pensar, e entender, portanto, que as imagens existentes até hoje em nossos terreiros, tiveram origem pela imposição religiosa, de uma religião que condena o uso de esculturas com base no próprio livro sagrado e doutrinário.
Vamos pensar também que, se crermos nos textos bíblicos, Deus não sentia ciúmes ou egoísmo como cogitamos linhas atrás, e sim, deixava claro aos homens que não houvesse idolatria.
Mas se egoísmo e ciúmes são sentimentos que não cabem a Deus, por ser o criador de tudo, onipotente, onisciente e onipresente. Porque o maior mandamento exige que se ame a Deus sobre todas as coisas? Isso não é idolatria?
Vamos deixar essa questão para um artigo futuro e voltar a falar das esculturas nos terreiros de umbanda.
Se a origem de esculturas em nossos altares foi da forma descrita acima, precisamos mantê-las até hoje?
Muitos sacerdotes de Umbanda afirmam que não é preciso mais manter esculturas em nossos altares e dizem que com o tempo realmente isso será extinto da religião.
Concordo com estas afirmativas quando creio que Umbanda é culto a natureza, culto aos orixás, manifestação dos espíritos para a prática da caridade, e através de fluidos dos elementos naturais nos traz harmonia e equilíbrio energético.
Sendo assim, a imagem religiosa pode ser vista simplesmente como uma peça de arte e decoração dentro dos terreiros?
Primeiramente a ativação da fé na grande maioria das pessoas precisa de um estimulo visual. Falar com o caboclo ou exu, sem conhecer sua aparência e características, para muitos, não é o suficiente para criar uma ligação energética, que ative as forças necessárias para se cumprir o que é preciso ao assistido.
Além disso, nossa grande diretriz é crer que a umbanda tem fundamento.
Então qual é o fundamento das esculturas em nossa crença religiosa?
A escultura por si só realmente é uma peça decorativa, que muitos adquirem por simpatizarem com determinada entidade, e desejam ter em seus lares o simbolismo da mesma, para ativação de sua fé visual ao rezarem.
Nos altares em muitos terreiros são usadas como pontos de força, na irradiação de energias de harmonia e equilíbrio, e como proteção na absorção de energias densas e negativas nas tronqueiras ou casas de exu.
Mas, para terem fundamento na umbanda, as esculturas devem ser preparadas para compor um terreiro e ter a função de portal energético.
Deve ser rezada e consagrada ao criador, e ao orixá ou guia que a represente.
Alguns sacerdotes mais antigos furavam embaixo das esculturas, e assentavam dentro dela elementos naturais, referentes a energia que ela representava. Algumas sementes, folhas secas, pedras, palha da costa, pó de pemba, etc.
Conforme a escultura, o guia chefe ou o sacerdote do terreiro, determinava quais elementos deveriam ser assentados, em seguida, o furo era tapado com gesso ou argila.
O Guia chefe cruzava cada imagem com pemba, entoando pontos cantados e imantando a mesma na energia de seus elementos de uso e velas firmadas.
Só após procedimentos assim ou semelhantes a estes, as esculturas estavam fundamentadas e energizadas, para compor o seu espaço no altar ou em outros pontos do terreiro de umbanda, cumprindo sua função de portal energético.
Fundamentos esclarecidos e observada a questão da fé visual, devemos ainda pensar que a umbanda ainda é uma religião nova, que vem aos poucos desvinculando dogmas de outras religiões e apresentando conceitos próprios.
Mas, existe também a tradição passada de geração em geração que mantém vivo o sincretismo religioso e o uso das esculturas nos terreiros.
E, além das esculturas católicas que compõem os altares de umbanda, esculturas de orixás vem sendo desenvolvidas constantemente. Assim como de todas entidades militantes em todas as falanges e linhas de trabalho da religião.
Quando os guias começaram a narrar e demonstrar nos terreiros suas descrições e características, a indústria e o comércio religioso começou a desenvolver as infinidades de imagens existentes.
Porém, padronizaram esculturas de determinados entidades, colocando como regra que toda falange seria da mesma forma.
Na atualidade, desenvolvemos para a mesma falange esculturas diferentes, conforme a descrição do guia manifestado ou pela intuição do médium através de um desenho. Pois, sabemos que cada ser é uma individualidade, embora se apresente com o nome da falange que representa.
Irmãos leitores, concluo dizendo que, para ativar a energia sagrada no universo, tudo é válido, desde que tenha fundamento. Vamos sempre respeitar a diversidade existente na umbanda. Axé!

Hélio DoganelliFilho ( Pai Hélinho de Oxalá )
Dirigente Espiritual do Centro de Estudos Religiosos e Espirituais João de Angola
Poeta e Escritor Umbandista / Artista Plástico e Escultor Religioso

Texto publicado na Revista do Leitor Umbandista / Edição 07 - Dezembro/2018
Baixe a revista gratuitamente no site - http://www.umbandavale.com.br

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