quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

À DEUS, O QUE É DE DEUS



Muitos amigos leitores conhecem a frase: “Dai, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” atribuída a Jesus Cristo nos evangelhos como resposta sobre a delicada questão do pagamento de impostos aos Romanos.

Mas, após esta colocação vamos falar sobre Umbanda.
Dias atrás em um grupo de discussões que participo surgiu a conversa sobre eventos e cursos cobrados e gratuitos referentes a religião Umbanda. Optei em não entrar na conversa, reservando minhas opiniões para este momento.

Aprendemos constantemente que Umbanda é caridade e nada se cobra. O Caboclo das Sete Encruzilhadas nos deixou as mensagens:
“Umbanda é a manifestação do espírito para a prática da caridade.”
“Aprender com quem sabe mais e ensinar a quem sabe menos.”
Não tenho ciência que o Caboclo orientou a cobrar ensinamentos e atendimentos espirituais.

Sabemos que o dom de mediunidade nos é dado de graça, e de graça devemos exercê-lo.
Mas, e as despesas materiais para exercer a mediunidade?

Os terreiros para se manterem, normalmente contam com a colaboração e doações dos membros, médiuns e assistidos.
As despesas como aluguel e contas de consumo, muitas vezes são arcadas pelo próprio sacerdote do terreiro, que acaba buscando recursos em seu trabalho material, tirando da sua vida pessoal o complemento financeiro para manter a casa de caridade aberta.

Eu apoio eventos que auxiliem os terreiros a arcar com suas despesas mensais, como bingos, almoços, bazares, entre outros.
Também acho maravilhoso, os ensinamentos sobre a Umbanda estarem ao alcance de todos.
Mas de alguns anos para cá, iniciou-se uma verdadeira febre de cursos, workshops e eventos sobre os mais variados temas da Umbanda.

Não sou contra os terreiros cobrarem cursos, pois, ajuda nas despesas mensais. Mas, vemos atualmente uma verdadeira banalização dos ensinamentos e fundamentos divididos em cursos absurdos e fantasiosos muitas vezes, com o único intuito de ganhar dinheiro, e não de levar ensinamentos.
Sim, ganhar o dinheiro é essencial como já disse, pois as instituições tem diversas despesas; não somente de aluguel e contas de consumo, mas de materiais de higiene e limpeza, de materiais litúrgicos, etc.

Em contrapartida, alguns sacerdotes não se utilizam mais do trabalho material para seu sustento, e sim, vem se utilizando da Umbanda através de cursos, workshops e eventos, não somente para manter a instituição religiosa, mas para arcar com sua vida pessoal, suas despesas e luxos inclusive.

Não sou hipócrita, pois ganho dinheiro com as religiões, não somente com a Umbanda, com outras religiões também, sou escultor religioso e comercializo esculturas além de alguns outros itens religiosos.
Mas, não exploro a fé e nem o desconhecimento das pessoas.
Não exijo aos filhos de santo que adquiram comigo esculturas ou outros artigos. Não exijo que tenham esculturas em casa para aumentar minhas vendas, ao contrário, se for necessário ou queiram ter suas esculturas, estimulo a procurarem o melhor preço, que caiba eu seu orçamento.
Também sempre ofereci cursos gratuitos em nosso terreiro, inclusive anos atrás gerei polêmica e desavenças, quando ofereci gratuitamente um curso que rendeu boas quantias para alguns bolsos que se denominavam os “Doutores da Lei” no meio da religião.

A febre existente hoje de cursos e workshops obriga os adeptos a terem seus diplomas, desta forma, não se segue mais uma doutrina por amor e caridade, se compra diplomas e se causa assim uma expansão banalizada e desorientada.
Culpa disso também está nas mentes de muitos que procuram os terreiros pelo maravilhismo. Não buscando seu desenvolvimento mediúnico e evolução, e sim, procurando um cargo de destaque dentro de uma casa espiritual, ou, desejando em pouco tempo abrir a sua própria casa.

Tal prova disso, é que os valores cobrados em cursos são tratados como investimento, pois já colocam nas mentes capitalistas e aproveitadoras a certeza que irão recuperar seu investimento oferecendo o curso a outros assim que estiverem com seus diplomas nas paredes.

E a febre de eventos; é maravilhosa, pois divulga e expande a religião Umbanda.
É excelente para que a Umbanda se destaque na sociedade.
Mas, com o vírus de eventos e cursos infectando a religião, a Umbanda por si só está virando uma vitrine comercial aonde quem não tem capital para investir fica parado na evolução, ou busca ensinamentos que confundem a muitos na diversidade da internet.
Também concordo que um evento muitas vezes precisa de capital para aluguel, decoração, coquetel, etc. Mas, vemos acontecer alguns eventos que fogem a realidade das despesas e certamente servem para alguns aproveitadores reverterem em sua vida pessoal.

E a assistência social? Isto sim falta na Umbanda.
Não vejo os terreiros ou administradores dos eventos reverterem capital que sobra de eventos em assistência social.
Claro, não posso generalizar, muitos sacerdotes e terreiros caminham no vermelho sempre, muitos fazem assistência social, muitos oferecem cursos gratuitos, e muitos cobram o suficiente para arcar com despesas, revertendo o que sobra em assistência social. Muitos inclusive não cobram cursos de quem tem interesse em fazer e não podem pagar.

Enfim, precisamos rever os valores da religião.
E acima de tudo escutar os mentores e guias chefes sobre a questão do dinheiro.
Vamos conversar internamente com nosso coração e nossa mente, e concluir até que ponto arrecadar dinheiro usando o nome da Umbanda é necessidade para levar a bandeira de Oxalá ou conveniência em benefício próprio.

Fica a frase de Jesus como exemplo para nossa própria expiação.


Hélio DoganelliFilho ( Pai Hélinho de Oxalá )
Dirigente Espiritual do Centro de Estudos Religiosos e Espirituais João de Angola
Poeta e Escritor Umbandista / Artista Plástico e Escultor Religioso

Texto Publicado na Revista do Leitor Umbandista / Edição 06 - Novembro/2018
Baixe gratuitamente a revista no site - http://www.umbandavale.com.br

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