Eu me recordo de
quando iniciei na Umbanda, ouvia muito no Terreiro a frase:
“- Você está
devendo obrigação. Por isso sempre está apanhando dos Orixás.”
Não só direcionada
a mim no início de desenvolvimento mediúnico, mas aos outros filhos de fé
também. Se algo na sua vida não dava certo, era surra do orixá.
E, até hoje
ouvimos em muitos terreiros essas frases, tentando justificar que caminhos fechados
e problemas materiais são surras dos orixás e guias.
Algumas pessoas me
questionam sobre isso.
“- Se os guias e
orixás são bons. Porque tanta surra e caminhos fechados?”
E muitas pessoas
concluem logo que orixás e guias são seres negativos, e inclusive deixam a
religião pelo medo, pelo desentendimento. E muitas vezes por não aceitarem suas
provações culpando os guias e orixás, que já estão um tanto denegridos por outras
religiões que buscam diariamente aumentar seu quadro de fiéis.
O medo e a falta
de conhecimento dentro da religião de Umbanda devem ficar no passado, pois,
atualmente a religião se demonstra aberta a todos que querem conhecê-la e
estudá-la. Ressalto apenas que o estudo teórico deve estar caminhando junto com
a prática mediúnica.
Anos atrás o
conhecimento era fechado aos sacerdotes e às pessoas que tinham missão
sacerdotal. Embora eu acredite que a missão sacerdotal deva ser confirmada
espiritualmente. O que quero definir em poucas palavras é que, alguns
sacerdotes antigamente manipulavam adeptos pelo medo e pelo desconhecimento do
oculto, impregnando na corrente mediúnica a idéia da surra dos orixás.
Eu venho afirmar
que não existe surra dos orixás.
Existe sim o
desequilíbrio do médium em sua conduta diária, ou descaso com sua vida
espiritual e com seu desenvolvimento mediúnico.
Na Umbanda, nossa
ligação com a criação nos coloca em contato com a energia divina e com a
manipulação energética dos elementos naturais. Esta magia constante se
demonstra através da manifestação dos guias e orixás e nos fenômenos
mediúnicos.
É parte do
equilíbrio no planeta todo ser humano ter em si o bem e o mal, mas cada qual escolhe
por seguir o caminho mais positivo ou o mais negativo.
Entendemos que o
pensamento é energia em ação, e se vibramos bons pensamentos atraímos coisas
boas, enquanto se vibrarmos pensamentos negativos, conseqüentemente, teremos
afinidades negativas se ligando a nós.
E assim se conclui
que através da fé mantemos o equilíbrio constante em nossas vidas para
prosseguir na caminhada.
Desta forma
reafirmo que orixás e guias não dão surra em ninguém.
São divindades e
entidades de muita luz que nos acompanham constantemente, se desdobrando muitas
vezes para nos direcionar no melhor caminho, e nos intuem sempre para que
possamos exalar boas energias e estar em equilíbrio espiritual.
A mediunidade
descontrolada e mal desenvolvida, nos leva ao constante desequilíbrio e
distanciamento das forças divinas. Sendo assim, as surras que levamos na vida
são presentes de nossas próprias escolhas, através de nosso mental e de nosso
emocional desequilibrados.
Não aceitar a
missão espiritual, o descompromisso com a própria mediunidade, a blasfêmia
contra a criação e os seres iluminados que nos dão sustenção, nos faz caminhar
a beira de um abismo onde forças maléficas estão prontas a nos sugar para a
escuridão, e assim, cada vez mais seremos levados a cegueira espiritual.
A Umbanda, os
Orixás e guias querem a nossa fé e reverência ao criador e a energia sagrada
que emana no universo. Fé é sinônimo de amor e dedicação a Deus e aos
fundamentos da religião que se propõe a praticar.
Dar obrigação aos
orixás deve ser entendido como mais uma forma de reverência, que demonstra o
compromisso, a dedicação, o amor; e nos faz emancipar a fé propiciando o
equilíbrio espiritual, que reflete em nossa vida material e faz sim as portas
se abrirem.
Devemos deixar de
olhar a obrigação aos Orixás como algo negativo, que, se não for executada
seremos punidos por eles.
E entender que a
maior obrigação que devemos ter é conosco mesmo, a nossa obrigação de manter a
fé todos os dias, em todos os momentos e em todas as circunstâncias.
Assim teremos a
certeza que não existe surra dos Orixás.
Hélio DoganelliFilho
( Pai Hélinho de Oxalá )
Dirigente
Espiritual do Centro de Estudos
Religiosos e Espirituais João de Angola
Poeta e Escritor
Umbandista / Artista Plástico e
Escultor Religioso
Texto publicado na Revista do Leitor Umbandista / Edição 05 - Outubro/2018
Baixe gratuitamente a revista no site - http://www.umbandavale.com.br

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