quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

SURRA DOS ORIXÁS



Eu me recordo de quando iniciei na Umbanda, ouvia muito no Terreiro a frase:
“- Você está devendo obrigação. Por isso sempre está apanhando dos Orixás.”
Não só direcionada a mim no início de desenvolvimento mediúnico, mas aos outros filhos de fé também. Se algo na sua vida não dava certo, era surra do orixá.
E, até hoje ouvimos em muitos terreiros essas frases, tentando justificar que caminhos fechados e problemas materiais são surras dos orixás e guias.

Algumas pessoas me questionam sobre isso.
“- Se os guias e orixás são bons. Porque tanta surra e caminhos fechados?”
E muitas pessoas concluem logo que orixás e guias são seres negativos, e inclusive deixam a religião pelo medo, pelo desentendimento. E muitas vezes por não aceitarem suas provações culpando os guias e orixás, que já estão um tanto denegridos por outras religiões que buscam diariamente aumentar seu quadro de fiéis.

O medo e a falta de conhecimento dentro da religião de Umbanda devem ficar no passado, pois, atualmente a religião se demonstra aberta a todos que querem conhecê-la e estudá-la. Ressalto apenas que o estudo teórico deve estar caminhando junto com a prática mediúnica.
Anos atrás o conhecimento era fechado aos sacerdotes e às pessoas que tinham missão sacerdotal. Embora eu acredite que a missão sacerdotal deva ser confirmada espiritualmente. O que quero definir em poucas palavras é que, alguns sacerdotes antigamente manipulavam adeptos pelo medo e pelo desconhecimento do oculto, impregnando na corrente mediúnica a idéia da surra dos orixás.

Eu venho afirmar que não existe surra dos orixás.
Existe sim o desequilíbrio do médium em sua conduta diária, ou descaso com sua vida espiritual e com seu desenvolvimento mediúnico.

Na Umbanda, nossa ligação com a criação nos coloca em contato com a energia divina e com a manipulação energética dos elementos naturais. Esta magia constante se demonstra através da manifestação dos guias e orixás e nos fenômenos mediúnicos.
É parte do equilíbrio no planeta todo ser humano ter em si o bem e o mal, mas cada qual escolhe por seguir o caminho mais positivo ou o mais negativo.
Entendemos que o pensamento é energia em ação, e se vibramos bons pensamentos atraímos coisas boas, enquanto se vibrarmos pensamentos negativos, conseqüentemente, teremos afinidades negativas se ligando a nós.
E assim se conclui que através da fé mantemos o equilíbrio constante em nossas vidas para prosseguir na caminhada.

Desta forma reafirmo que orixás e guias não dão surra em ninguém.
São divindades e entidades de muita luz que nos acompanham constantemente, se desdobrando muitas vezes para nos direcionar no melhor caminho, e nos intuem sempre para que possamos exalar boas energias e estar em equilíbrio espiritual.

A mediunidade descontrolada e mal desenvolvida, nos leva ao constante desequilíbrio e distanciamento das forças divinas. Sendo assim, as surras que levamos na vida são presentes de nossas próprias escolhas, através de nosso mental e de nosso emocional desequilibrados.
Não aceitar a missão espiritual, o descompromisso com a própria mediunidade, a blasfêmia contra a criação e os seres iluminados que nos dão sustenção, nos faz caminhar a beira de um abismo onde forças maléficas estão prontas a nos sugar para a escuridão, e assim, cada vez mais seremos levados a cegueira espiritual.

A Umbanda, os Orixás e guias querem a nossa fé e reverência ao criador e a energia sagrada que emana no universo. Fé é sinônimo de amor e dedicação a Deus e aos fundamentos da religião que se propõe a praticar.
Dar obrigação aos orixás deve ser entendido como mais uma forma de reverência, que demonstra o compromisso, a dedicação, o amor; e nos faz emancipar a fé propiciando o equilíbrio espiritual, que reflete em nossa vida material e faz sim as portas se abrirem.

Devemos deixar de olhar a obrigação aos Orixás como algo negativo, que, se não for executada seremos punidos por eles.
E entender que a maior obrigação que devemos ter é conosco mesmo, a nossa obrigação de manter a fé todos os dias, em todos os momentos e em todas as circunstâncias.

Assim teremos a certeza que não existe surra dos Orixás.

  
Hélio DoganelliFilho ( Pai Hélinho de Oxalá )
Dirigente Espiritual do Centro de Estudos Religiosos e Espirituais João de Angola
Poeta e Escritor Umbandista / Artista Plástico e Escultor Religioso

Texto publicado na Revista do Leitor Umbandista / Edição 05 - Outubro/2018
Baixe gratuitamente a revista no site - http://www.umbandavale.com.br

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