Certa vez,
visitando o Terreiro de Umbanda de estimado amigo Sacerdote, eu me encontrava
como todo ser humano, cercado em desventuras e mazelas que a vida nos presenteia para evolução
e aprendizado.
Ao me queixar com
o Preto Velho sobre os infortúnios que estava vivenciando, desejava uma luz no
caminho para imediatamente solucionar tudo que me atormentava.
O iluminado guia
me olhou fixamente através dos olhos materiais do médium que o intermediava,
penetrando no mais íntimo do meu ser e rasgando a minha mente e a minha alma
com uma simples pergunta:
“- Zinfio sabe o
peso das guias que carrega?”
Naquele momento
abaixei a cabeça em reflexão ofertando lágrimas a mim mesmo, sem saber como
responder a pergunta do Preto Velho.
Com sabedoria
milenar ele prosseguiu a conversa me aconselhando, oferecendo assim lembranças
de minha posição e de minhas juras de amor enquanto Sacerdote Umbandista,
médium e religioso, simples espírito encarnado buscando os degraus evolutivos
assim como todos os seres humanos na Terra.
Tudo o que me
disse me trouxe ensinamentos, e tamanha foi a iluminação que me proporcionou
esta entidade, que pude mudar o padrão vibratório que me encontrava, saindo da
penumbra e resgatando as esperanças adormecidas.
Venho hoje
compartilhar aos irmãos leitores a sábia pergunta do Preto Velho e minhas
reflexões sobre o assunto.
- Irmãs e irmãos
leitores. Vocês sabem o peso das guias que carregam?
Claro que esta
pergunta não retrata o peso material e sim o peso moral e espiritual, mas vamos
sim, primeiramente falar um pouco sobre o peso material, creio que a partir
disso iremos ter uma boa reflexão sobre o peso energético que carregamos.
Antes quero dizer
que não sou dono da verdade, mas tenho a minha verdade pessoal.
Sou estudioso da
religião Umbanda e tenho meu seguimento doutrinário, e não me oponho a nenhuma
vertente de umbanda desde que seja fundamentada e respeitosa.
Estudando sou
observador e crítico com relação à isenção de fundamentos e respeito de alguns
infiltrados, que desta forma denigrem a Umbanda e transformam em chacota os
mais iluminados dos Terreiros e os mais sérios dos Sacerdotes.
Não tenho
pretensão de julgar ninguém, pois não quero ser julgado. E pela ética não vou
citar nomes de pessoas ou templos, mas, talvez algum amigo leitor se sinta
encapuzado por minhas observações relatadas a seguir.
Sendo assim,
inicio meus comentários sobre o peso material falando que já vi e vejo em
determinados terreiros médiuns que chegam a ficar arcados pelo peso material
das guias em seu pescoço.
Alguns destes tentam
mostrar seu grau sacerdotal ou impor respeito pelo tempo que estão na religião
através da quantidade de guias e brajás que carregam.
Vejo médiuns de
umbanda simplesmente comprando em lojas de artigos os mais diversos tipos de
guias, e sem preparar as mesmas usam como adornos no pescoço, sem conhecer o
real fundamento de cada cordão, de cada guia, de cada brajá...
Alguns
aproveitadores inclusive comercializam cordões de acrílico como sendo de
cristal ou porcelana. E pelo que entendo o acrílico não retém energia, não
sendo, portanto, material apropriado para montagem de guias religiosas.
Quando iniciei na
Umbanda, o Pai ou a Mãe Espiritual na devida época de cada médium lhe
determinava qual a guia poderia usar.
Desde a guia de
minúsculas missanguinhas até a guia de sete linhas de oito ou dez milímetros,
do brajá enrolado de três fios até o trançado de sete fios, cada médium era
instruído como fazer.
Cada um comprava
os materiais e os descarregava de energias contidas, em seguida montava com as
próprias mãos seu fio de contas, impregnando no cordão seu amor e sua energia. Após
montado o mesmo era preparado com firmezas de velas e banhos de ervas. Eram
deixados no tempo e no sereno da noite. Ao final eram levados ao guia chefe do
terreiro para ser confirmado e cruzado, somente então era permitido o uso pelo
médium.
Esse é um dos
exemplos que conheci e vivenciei, mas cada casa tinha seu fundamento conforme a
doutrina seguida, dentro da lei de comprometimento e amor com a energia oculta
e sagrada da religião.
As entidades
também faziam tudo na devida época; solicitavam seus cordões de trabalho e
descreviam quais elementos eram necessários e como deveria ser preparado e
fundamentado o cordão.
Atualmente além
das guias serem adquiridas pelas pessoas como adornos sem fundamentos, alguns
médiuns nos comércios já compram guias padronizadas para as entidades de sua
coroa trabalharem nas giras.
Muitos terreiros
tinham cabideiros dentro do conga com os lugares nomeados de cada médium, e as
guias somente saiam do espaço sagrado quando o terreiro fazia festas na mata ou
na praia, ou alguma obrigação necessária.
As mesmas eram
usadas após a defumação e os médiuns baterem cabeça e pedirem a benção ao Pai ou
Mãe da casa espiritual. Ao final da gira, cada médium agradecia a Oxalá e
deixava novamente suas guias no espaço determinado a ele.
Presenciei
terreiros com doutrina diferente, em que os médiuns levavam para casa suas
guias dentro dos bornás próprios, e ficavam guardadas até a próxima gira, aonde
só eram usadas sempre após serem defumadas e ao final da gira voltavam para
dentro do borná. Inclusive eram separadas em bornás brancos para as guias de
orixás e pretos para guias de exus e pombagiras. Havia também um borná para
cada entidade que trabalhasse na gira, com a cor determinada aonde carregava
seu cordão e seus outros elementos de trabalho.
Borná para ficar
esclarecido, era a denominação dada a uma espécie de saquinho feito de cetim ou
outro pano apropriado, com um cordão que lhe permitia permanecer fechado.
Nos dias atuais,
além das guias serem compradas como adornos como já disse, sem preparação e sem
fundamentos são usadas, da mesma forma são deixadas em qualquer lugar pelos
médiuns, qualquer pessoa coloca as mãos, médiuns saem da corrente no meio do
trabalho para irem ao banheiro com as guias no pescoço.
Já presenciei o cúmulo
de médiuns saírem da corrente para fumar, além de deixarem a corrente, eles
saem com as guias adornando o pescoço para saciar o vício durante o trabalho
espiritual.
Enfim, não estou
julgando doutrinas e nem apontando certos ou errados.
Mas, claramente
cantamos em determinado ponto: “...a Umbanda tem fundamento é preciso
preparar...”
É isso irmãos,
tudo na Umbanda deve ser respeitado e preparado com fundamento.
Estamos em meio ao
sagrado, e o sagrado tem fundamentos a preparar, seguir e respeitar para
movimentação energética em benefício de todos.
Irmãos leitores, o
que acham? Crítica ou sugestão de minha parte?
Na vivência e nas
observações que faço na caminhada religiosa, minha conclusão é que o peso
material das guias enfeita cabides e adorna egos e vaidades
Embora as vaidades
e egos também se apresentem muitas vezes sem o peso material das guias. Apresentam-se
na arrogância de graus hierárquicos e na busca de reconhecimento de alguns que
desejam brilhar e não serem iluminados.
Mas deixemos de
lado o peso material das guias, e volto neste momento a perguntar ao leitor:
- Você sabe o peso
das guias que carrega?
Vamos refletir irmãos
leitores.
Sejamos humildes
na Umbanda, independente de grau hierárquico ou tempo de religião.
Esse é o maior
tesouro: Humildade.
Amor ao próximo,
paciência, compreensão, fraternidade, compromisso, perseverança, fé... A
humildade resume isso tudo na Umbanda.
Este é o
verdadeiro peso das guias que carregamos.
Sejam trinta anos
ou trinta dias na religião, somos todos iguais perante a criação. Os nossos
guias e mentores não são nossos, e eles não saem lá de Aruanda para contemplar
a vaidade e o profano.
De que vale um mestre conhecedor da religião
sem humildade para ensinar a doutrina aos seus seguidores? Terá seguidores como
ele ou não terá seguidores.
O peso das guias
que carregamos, é o peso de sermos umbandistas vinte e quatro horas por dia, em
qualquer lugar que estivermos e em qualquer círculo social.
O peso das guias
que carregamos não é vivenciar fanatismo religioso. E sim nem mesmo falarmos de
religião ou de grau hierárquico.
O peso das guias
que carregamos é ser perseverante, honesto, caminhar com fé no dia a dia e
entender que a Umbanda, os orixás, os guias de luz não são culpados por nossos
problemas.
Ao contrário, eles
são a nossa sustenção espiritual.
E por mais que
façam para nos equilibrar e abrir nossos caminhos, somente ao entendermos o
real “peso” do compromisso com a nossa missão e com nós mesmos na Umbanda,
teremos mais humildade para carregar o peso material da guia de missanguinhas
ou do brajá de sete fios.
Hélio
DoganelliFilho ( Pai Hélinho de Oxalá )
Dirigente
Espiritual do Centro de Estudos
Religiosos e Espirituais João de Angola
Poeta e Escritor
Umbandista / Artista Plástico e
Escultor Religioso
Texto Publicado na Revista do Leitor Umbandista / Edição 02 - Julho/2018
Baixe gratuitamente a revista no site http://www.umbandavale.com.br
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