quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

O PESO DAS GUIAS QUE CARREGA




Certa vez, visitando o Terreiro de Umbanda de estimado amigo Sacerdote, eu me encontrava como todo ser humano, cercado em desventuras e mazelas que a vida nos presenteia para evolução e aprendizado.
Ao me queixar com o Preto Velho sobre os infortúnios que estava vivenciando, desejava uma luz no caminho para imediatamente solucionar tudo que me atormentava.
O iluminado guia me olhou fixamente através dos olhos materiais do médium que o intermediava, penetrando no mais íntimo do meu ser e rasgando a minha mente e a minha alma com uma simples pergunta:
“- Zinfio sabe o peso das guias que carrega?”
Naquele momento abaixei a cabeça em reflexão ofertando lágrimas a mim mesmo, sem saber como responder a pergunta do Preto Velho.
Com sabedoria milenar ele prosseguiu a conversa me aconselhando, oferecendo assim lembranças de minha posição e de minhas juras de amor enquanto Sacerdote Umbandista, médium e religioso, simples espírito encarnado buscando os degraus evolutivos assim como todos os seres humanos na Terra.
Tudo o que me disse me trouxe ensinamentos, e tamanha foi a iluminação que me proporcionou esta entidade, que pude mudar o padrão vibratório que me encontrava, saindo da penumbra e resgatando as esperanças adormecidas.
Venho hoje compartilhar aos irmãos leitores a sábia pergunta do Preto Velho e minhas reflexões sobre o assunto.
- Irmãs e irmãos leitores. Vocês sabem o peso das guias que carregam?
Claro que esta pergunta não retrata o peso material e sim o peso moral e espiritual, mas vamos sim, primeiramente falar um pouco sobre o peso material, creio que a partir disso iremos ter uma boa reflexão sobre o peso energético que carregamos.
Antes quero dizer que não sou dono da verdade, mas tenho a minha verdade pessoal.
Sou estudioso da religião Umbanda e tenho meu seguimento doutrinário, e não me oponho a nenhuma vertente de umbanda desde que seja fundamentada e respeitosa.
Estudando sou observador e crítico com relação à isenção de fundamentos e respeito de alguns infiltrados, que desta forma denigrem a Umbanda e transformam em chacota os mais iluminados dos Terreiros e os mais sérios dos Sacerdotes.
Não tenho pretensão de julgar ninguém, pois não quero ser julgado. E pela ética não vou citar nomes de pessoas ou templos, mas, talvez algum amigo leitor se sinta encapuzado por minhas observações relatadas a seguir.
Sendo assim, inicio meus comentários sobre o peso material falando que já vi e vejo em determinados terreiros médiuns que chegam a ficar arcados pelo peso material das guias em seu pescoço.
Alguns destes tentam mostrar seu grau sacerdotal ou impor respeito pelo tempo que estão na religião através da quantidade de guias e brajás que carregam.
Vejo médiuns de umbanda simplesmente comprando em lojas de artigos os mais diversos tipos de guias, e sem preparar as mesmas usam como adornos no pescoço, sem conhecer o real fundamento de cada cordão, de cada guia, de cada brajá...
Alguns aproveitadores inclusive comercializam cordões de acrílico como sendo de cristal ou porcelana. E pelo que entendo o acrílico não retém energia, não sendo, portanto, material apropriado para montagem de guias religiosas.
Quando iniciei na Umbanda, o Pai ou a Mãe Espiritual na devida época de cada médium lhe determinava qual a guia poderia usar.
Desde a guia de minúsculas missanguinhas até a guia de sete linhas de oito ou dez milímetros, do brajá enrolado de três fios até o trançado de sete fios, cada médium era instruído como fazer.
Cada um comprava os materiais e os descarregava de energias contidas, em seguida montava com as próprias mãos seu fio de contas, impregnando no cordão seu amor e sua energia. Após montado o mesmo era preparado com firmezas de velas e banhos de ervas. Eram deixados no tempo e no sereno da noite. Ao final eram levados ao guia chefe do terreiro para ser confirmado e cruzado, somente então era permitido o uso pelo médium.
Esse é um dos exemplos que conheci e vivenciei, mas cada casa tinha seu fundamento conforme a doutrina seguida, dentro da lei de comprometimento e amor com a energia oculta e sagrada da religião.
As entidades também faziam tudo na devida época; solicitavam seus cordões de trabalho e descreviam quais elementos eram necessários e como deveria ser preparado e fundamentado o cordão.
Atualmente além das guias serem adquiridas pelas pessoas como adornos sem fundamentos, alguns médiuns nos comércios já compram guias padronizadas para as entidades de sua coroa trabalharem nas giras.
Muitos terreiros tinham cabideiros dentro do conga com os lugares nomeados de cada médium, e as guias somente saiam do espaço sagrado quando o terreiro fazia festas na mata ou na praia, ou alguma obrigação necessária.
As mesmas eram usadas após a defumação e os médiuns baterem cabeça e pedirem a benção ao Pai ou Mãe da casa espiritual. Ao final da gira, cada médium agradecia a Oxalá e deixava novamente suas guias no espaço determinado a ele.
Presenciei terreiros com doutrina diferente, em que os médiuns levavam para casa suas guias dentro dos bornás próprios, e ficavam guardadas até a próxima gira, aonde só eram usadas sempre após serem defumadas e ao final da gira voltavam para dentro do borná. Inclusive eram separadas em bornás brancos para as guias de orixás e pretos para guias de exus e pombagiras. Havia também um borná para cada entidade que trabalhasse na gira, com a cor determinada aonde carregava seu cordão e seus outros elementos de trabalho.
Borná para ficar esclarecido, era a denominação dada a uma espécie de saquinho feito de cetim ou outro pano apropriado, com um cordão que lhe permitia permanecer fechado.
Nos dias atuais, além das guias serem compradas como adornos como já disse, sem preparação e sem fundamentos são usadas, da mesma forma são deixadas em qualquer lugar pelos médiuns, qualquer pessoa coloca as mãos, médiuns saem da corrente no meio do trabalho para irem ao banheiro com as guias no pescoço.
Já presenciei o cúmulo de médiuns saírem da corrente para fumar, além de deixarem a corrente, eles saem com as guias adornando o pescoço para saciar o vício durante o trabalho espiritual.
Enfim, não estou julgando doutrinas e nem apontando certos ou errados.
Mas, claramente cantamos em determinado ponto: “...a Umbanda tem fundamento é preciso preparar...” 
É isso irmãos, tudo na Umbanda deve ser respeitado e preparado com fundamento.
Estamos em meio ao sagrado, e o sagrado tem fundamentos a preparar, seguir e respeitar para movimentação energética em benefício de todos.
Irmãos leitores, o que acham? Crítica ou sugestão de minha parte?
Na vivência e nas observações que faço na caminhada religiosa, minha conclusão é que o peso material das guias enfeita cabides e adorna egos e vaidades
Embora as vaidades e egos também se apresentem muitas vezes sem o peso material das guias. Apresentam-se na arrogância de graus hierárquicos e na busca de reconhecimento de alguns que desejam brilhar e não serem iluminados.
Mas deixemos de lado o peso material das guias, e volto neste momento a perguntar ao leitor:
- Você sabe o peso das guias que carrega?
Vamos refletir irmãos leitores.
Sejamos humildes na Umbanda, independente de grau hierárquico ou tempo de religião.
Esse é o maior tesouro: Humildade.
Amor ao próximo, paciência, compreensão, fraternidade, compromisso, perseverança, fé... A humildade resume isso tudo na Umbanda.
Este é o verdadeiro peso das guias que carregamos.
Sejam trinta anos ou trinta dias na religião, somos todos iguais perante a criação. Os nossos guias e mentores não são nossos, e eles não saem lá de Aruanda para contemplar a vaidade e o profano.
 De que vale um mestre conhecedor da religião sem humildade para ensinar a doutrina aos seus seguidores? Terá seguidores como ele ou não terá seguidores.
O peso das guias que carregamos, é o peso de sermos umbandistas vinte e quatro horas por dia, em qualquer lugar que estivermos e em qualquer círculo social.
O peso das guias que carregamos não é vivenciar fanatismo religioso. E sim nem mesmo falarmos de religião ou de grau hierárquico.
O peso das guias que carregamos é ser perseverante, honesto, caminhar com fé no dia a dia e entender que a Umbanda, os orixás, os guias de luz não são culpados por nossos problemas.
Ao contrário, eles são a nossa sustenção espiritual.
E por mais que façam para nos equilibrar e abrir nossos caminhos, somente ao entendermos o real “peso” do compromisso com a nossa missão e com nós mesmos na Umbanda, teremos mais humildade para carregar o peso material da guia de missanguinhas ou do brajá de sete fios.


Hélio DoganelliFilho ( Pai Hélinho de Oxalá )
Dirigente Espiritual do Centro de Estudos Religiosos e Espirituais João de Angola
Poeta e Escritor Umbandista / Artista Plástico e Escultor Religioso

Texto Publicado na Revista do Leitor Umbandista / Edição 02 - Julho/2018
Baixe gratuitamente a revista no site http://www.umbandavale.com.br

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