A intolerância religiosa de fanáticos vem
há anos perseguindo a umbanda de muitas formas.
A Bíblia, tida como escrituras sagradas
por algumas religiões, sempre foi e ainda é, usada como arma de ataque a toda e
qualquer forma de crença e culto divergente à tal pregação.
Exemplo disto são os textos onde “Deus”
proíbe aos homens fazerem esculturas para simbolizar a Divindade.
Seria isso uma forma de egoísmo, ciúmes ou
autoritarismo de Deus sobre a humanidade?
De forma alguma venho julgar ao Criador,
mas sim, tentar junto a você leitor, formular um pensamento lógico e
fundamentado sobre Deus e os textos bíblicos que tanto servem para atacar nossa
religião.
Alguns textos são apavorantes e proíbem
que sejam feitas imagens de qualquer animal da terra, do ar e do mar.
Pergunto então, porque os mesmos fanáticos
que perseguem a Umbanda com estes textos sobre esculturas, e afirmam não usar
nenhum tipo de imagem que faça referência nem a Jesus, possuem por todos os
cantos de sua rotina, imagens, adesivos, chaveiros, e uma infinidade de outros
itens de uma formiga desmilinguida que segura plaquinhas dizendo “Jesus te ama”
entre outras frases?
E a religião católica, que tem por
princípio a Bíblia. Porque não respeita essas menções sagradas de Deus, e
mantém em todos os cantos das Igrejas diversas formas de esculturas
desenvolvidas nos mais diversos tipos de materiais? Imagens com referência a
Jesus em todos seus passos, e imagens de todos santos e beatos.
A imposição católica na conversão
religiosa dos escravos os fez aceitar as esculturas católicas e associar aos
orixás de suas culturas, desta forma continuaram prestando o culto de uma
maneira figurada.
Interessante pensar, e entender, portanto,
que as imagens existentes até hoje em nossos terreiros, tiveram origem pela
imposição religiosa, de uma religião que condena o uso de esculturas com base
no próprio livro sagrado e doutrinário.
Vamos pensar também que, se crermos nos
textos bíblicos, Deus não sentia ciúmes ou egoísmo como cogitamos linhas atrás,
e sim, deixava claro aos homens que não houvesse idolatria.
Mas se egoísmo e ciúmes são sentimentos
que não cabem a Deus, por ser o criador de tudo, onipotente, onisciente e
onipresente. Porque o maior mandamento exige que se ame a Deus sobre todas as
coisas? Isso não é idolatria?
Vamos deixar essa questão para um artigo
futuro e voltar a falar das esculturas nos terreiros de umbanda.
Se a origem de esculturas em nossos
altares foi da forma descrita acima, precisamos mantê-las até hoje?
Muitos sacerdotes de Umbanda afirmam que
não é preciso mais manter esculturas em nossos altares e dizem que com o tempo
realmente isso será extinto da religião.
Concordo com estas afirmativas quando
creio que Umbanda é culto a natureza, culto aos orixás, manifestação dos
espíritos para a prática da caridade, e através de fluidos dos elementos
naturais nos traz harmonia e equilíbrio energético.
Sendo assim, a imagem religiosa pode ser
vista simplesmente como uma peça de arte e decoração dentro dos terreiros?
Primeiramente a ativação da fé na grande
maioria das pessoas precisa de um estimulo visual. Falar com o caboclo ou exu,
sem conhecer sua aparência e características, para muitos, não é o suficiente
para criar uma ligação energética, que ative as forças necessárias para se
cumprir o que é preciso ao assistido.
Além disso, nossa grande diretriz é crer
que a umbanda tem fundamento.
Então qual é o fundamento das esculturas
em nossa crença religiosa?
A escultura por si só realmente é uma peça
decorativa, que muitos adquirem por simpatizarem com determinada entidade, e
desejam ter em seus lares o simbolismo da mesma, para ativação de sua fé visual
ao rezarem.
Nos altares em muitos terreiros são usadas
como pontos de força, na irradiação de energias de harmonia e equilíbrio, e
como proteção na absorção de energias densas e negativas nas tronqueiras ou
casas de exu.
Mas, para terem fundamento na umbanda, as
esculturas devem ser preparadas para compor um terreiro e ter a função de
portal energético.
Deve ser rezada e consagrada ao criador, e
ao orixá ou guia que a represente.
Alguns sacerdotes mais antigos furavam
embaixo das esculturas, e assentavam dentro dela elementos naturais, referentes
a energia que ela representava. Algumas sementes, folhas secas, pedras, palha
da costa, pó de pemba, etc.
Conforme a escultura, o guia chefe ou o
sacerdote do terreiro, determinava quais elementos deveriam ser assentados, em
seguida, o furo era tapado com gesso ou argila.
O Guia chefe cruzava cada imagem com
pemba, entoando pontos cantados e imantando a mesma na energia de seus
elementos de uso e velas firmadas.
Só após procedimentos assim ou semelhantes
a estes, as esculturas estavam fundamentadas e energizadas, para compor o seu
espaço no altar ou em outros pontos do terreiro de umbanda, cumprindo sua
função de portal energético.
Fundamentos esclarecidos e observada a
questão da fé visual, devemos ainda pensar que a umbanda ainda é uma religião
nova, que vem aos poucos desvinculando dogmas de outras religiões e
apresentando conceitos próprios.
Mas, existe também a tradição passada de
geração em geração que mantém vivo o sincretismo religioso e o uso das
esculturas nos terreiros.
E, além das esculturas católicas que compõem
os altares de umbanda, esculturas de orixás vem sendo desenvolvidas
constantemente. Assim como de todas entidades militantes em todas as falanges e
linhas de trabalho da religião.
Quando os guias começaram a narrar e
demonstrar nos terreiros suas descrições e características, a indústria e o
comércio religioso começou a desenvolver as infinidades de imagens existentes.
Porém, padronizaram esculturas de
determinados entidades, colocando como regra que toda falange seria da mesma
forma.
Na atualidade, desenvolvemos para a mesma
falange esculturas diferentes, conforme a descrição do guia manifestado ou pela
intuição do médium através de um desenho. Pois, sabemos que cada ser é uma
individualidade, embora se apresente com o nome da falange que representa.
Irmãos leitores, concluo dizendo que, para
ativar a energia sagrada no universo, tudo é válido, desde que tenha
fundamento. Vamos sempre respeitar a diversidade existente na umbanda. Axé!
Hélio
DoganelliFilho ( Pai Hélinho de Oxalá )
Dirigente
Espiritual do Centro
de Estudos Religiosos e Espirituais João de Angola
Poeta
e Escritor Umbandista / Artista
Plástico e Escultor Religioso
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